Empresas devem se adequar para receber funcionários com deficiência

Ao centro, de camisa verde, a funcionária da unidade de Uberlândia (MG) Paula Augusto, que é deficiente auditiva. Os colegas aprenderam a linguagem de sinais para se comunicarem com ela

Funcionários da Monsanto de Uberlândia (MG) deram um show de cidadania ao receber a auxiliar de Laboratório Paula Augusto, no final de 2013. Para que a profissional, que é deficiente auditiva, se adaptasse mais rapidamente ao novo ambiente de trabalho, o grupo decidiu, por conta própria, iniciar aulas de Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). O curso, com duração de seis meses e duas horas de aula por semana, foi pago e ministrado na própria empresa.

Paula lembra que, logo que começou a trabalhar na Monsanto, teve algumas barreiras para interagir com os colegas. “Para me comunicar precisava escrever ou fazer mímica. Além disso, às vezes, a velocidade da fala dificultava a leitura labial”, explica.  Após o grupo aprender a linguagem de sinais, a comunicação ficou mais fácil, ajudando na interação com a equipe. “Em eventos internos como treinamento e pausas de segurança, conto  com a presença de um intérprete”, completa.

Mayanne Marquez, analista de Qualidade, Meio Ambiente, Segurança e Saúde (Quality, Enviroment, Safety and Health, QESH), e Walma Silva, auxiliar Administrativa de Saúde Ocupacional, participaram do curso de libras. Para elas, a iniciativa vai além dos portões da empresa. “Para acolher bem a Paula, precisávamos conhecer a forma como ela se comunica. Em poucas semanas e com muita dedicação já estávamos conversando por meio de sinais”, explica Mayanne. “Além disso, todos temos diferenças e é preciso respeitar e compreender cada um, não só dentro da empresa, mas também no meio social”, acredita Walma.

Inclusão no trabalho

Paula é uma das 176 pessoas com deficiência que a Monsanto emprega no país. O exemplo dos funcionários de Uberlândia mostra a importância da integração desses profissionais. “A inclusão no mercado de trabalho, além de um direito fundamental garantido na Constituição Federal, é um resgate da cidadania e da dignidade”, explica Fernanda Di Cavalcanti, auditora Fiscal do Trabalho e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade).

De acordo com a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad, a inclusão exige investimento e atenção por parte das empresas. “Para receber estes profissionais são necessários alguns ajustes estruturais. O primeiro passo é a adequação das instalações físicas da organização e, depois disso, é importante verificar se a estação de trabalho do novo funcionário conta com espaço suficiente e se os instrumentos que ele precisa estão apropriados para uso”, explica.

Elaine destaca que também é muito importante investir na preparação dos funcionários para receber, da melhor forma, o colega com deficiência. “Uma das possibilidades é realizar campanhas de sensibilização que simulam o dia a dia dessas pessoas. Assim, os funcionários não portadores de deficiência irão se sentir confortáveis para auxiliar o profissional com necessidade especial”, completa.

De acordo com dados obtidos pelo último Censo IBGE, realizado em 2010, cerca de 45,6 milhões de pessoas no Brasil têm algum tipo de deficiência, o que representa 23,91% da população. A Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, da Organização das Nações Unidas (ONU), reconhece, entre vários outros, o direito ao trabalho em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. No Brasil, esta Convenção foi ratificada com status de emenda constitucional em 2008.

Proporcionar oportunidade de trabalho a pessoas com deficiência reforça o papel social das empresas. No caso das que têm mais de 100 funcionários, a Lei de Cotas prevê que 2% a 5% dos cargos devem ser destinados a esses profissionais, contribuindo assim para a sua inclusão social.