Agropecuária sustentável para alimentar o mundo

Como aumentar a produção de alimentos para atender à demanda global é um dos grandes desafios do setor agropecuário nos últimos tempos

Melissa Cooney, Gerente de Segurança Alimentar Sustentável para a Região da América Latina, The Nature Conservancy, mcooney@tnc.org

Com a população global a ponto de estourar para quase 10 bilhões de pessoas até 2050 e o crescimento do poder de consumo no mundo, a produção de alimentos precisa necessariamente aumentar de forma dramática, a uma taxa entre 70% e 100% em relação ao cenário atual. O Brasil já é um produtor-chave de alimentos – figura entre os três primeiros na lista de produção de açúcar, milho, soja e carne – e, com seus recursos e riquezas, o país deve aumentar sua produção ainda mais para atender os níveis inéditos de demanda global. Mas, de onde virá essa abundância para alimentar o mundo?

Se o Brasil tem muitas áreas por onde a agricultura poderia se implantar, também existem vantagens de conter essa expansão. A produção extensiva leva o cultivo para cada vez mais longe da base das operações e da infraestrutura de transporte e de processamento dos alimentos, e requer mais equipamentos no campo para plantar e colher a tempo. A expansão em grande escala nos habitats remanescentes do Cerrado e Amazônia pode ter impactos negativos nos serviços ambientais fornecidos por esses biomas, como a produção, a filtragem e o fornecimento de água. O desmatamento e a conversão de habitats, mesmo dentro dos limites estabelecidos pelo Código Florestal, contribuem para as emissões de carbono e aumenta o risco reputacional, tanto dos produtores quanto dos compradores. Num mercado de commodities agropecuárias que começa a se preocupar cada vez mais com questões socioambientais, existe alguma alternativa à expansão da fronteira agrícola que permita atender à demanda mundial?

Chegou a hora da inovação, de adotar práticas mais eficientes, de passar da produção extensiva para a chamada produção intensiva sustentável, de produzir mais em cada hectare já sendo lavrado, de direcionar a expansão de forma planejada para pastagens degradadas e torná-las produtivas novamente. É uma realidade próxima: na pecuária, o Sul do país vem aumentando sua produtividade e já conta com uma média de 1,3 cabeças por hectare, enquanto o Centro-Oeste continua com menos de 1 cabeça por hectare. Casos de até 5 cabeças por hectare foram documentados no Pará. Cálculos conservadores indicam que aumentar as cabeças por hectare na região do Cerrado liberaria uns 12 milhões de hectares de pastagem, que poderiam ser convertidos em produção de soja e outras culturas. O Brasil tem rendimentos, na lavoura de soja, comparáveis aos dos EUA; a chegada de novas tecnologias poderia resultar em aumentos muito expressivos de rendimento nesse setor, nas próximas décadas. Existem grandes oportunidades para intensificação nas áreas já abertas e preparadas , de maneira sustentável e economicamente eficiente, sem precisar expandir para áreas nativas e sem prejudicar o meio ambiente que suporta essa produção.

A ciência mostra que melhores práticas e outras estratégias, levam à melhor manejo e qualidade dos solos, precisão na aplicação de recursos e insumos agrícolas, maior integração de áreas naturais, e resiliência ante os efeitos de mudanças climáticas, todos fatores importantes para aumentar o rendimento. Mas, só entender a ciência do setor agrícola não leva o produtor a mudar para práticas sustentáveis. O Código Florestal que instituiu como obrigatório o Cadastro Ambiental Rural (CAR) já estabeleceu o marco para o cumprimento mínimo de boas práticas, e o BNDES liberou linhas de crédito preferenciais para a produção ambientalmente correta, por meio do programa Agricultura de Baixo Carbono; agora, cabe aos governos locais, às empresas privadas, às instituições de pesquisa e às associações civis trabalharem juntos para facilitar o cumprimento e criar incentivos de execução do Código, criar redes de apoio técnico e canais de disseminação, espalhar inovações tecnológicas, acelerar o acesso a recursos financeiros e reconhecer e premiar casos de sucesso, para que a intensificação sustentável seja uma opção viável e atrativa.

Ainda assim, a intensificação não resolve tudo; é apenas um elemento de um pacote de medidas necessárias para uma agricultura sustentável. As necessidades de governança – uma gestão que considera todos os interesses estratégicos – assim como melhorias no planejamento da ocupação do território, ainda não entraram nas agendas de muitos municípios do país. É só com isso que a agricultura sustentável fincará raízes em grande escala, e o Brasil se tornará um líder e um modelo não só na produção de alimentos, mas também na sustentabilidade da agropecuária.